‘O analfabeto acha que a culpa é dele’, diz professora de jovens e adultos

Gerações de brasileiros que, durante a infância, não tiveram acesso ao fenômeno da educação universal, enfrentam hoje obstáculos para conseguir dar o primeiro passo no mundo da escolarização. Além da dificuldade de não conseguirem realizar tarefas cotidianas como ler letreiros de ônibus ou rótulos de produtos, adultos analfabetos por vezes se deparam, quando chegam a um curso de alfabetização, com professores treinados apenas para ensinar crianças ou horários de aulas incompatíveis. Segundo a alfabetizadora Jany Dilourdes Nascimento, que desde 1997 trabalha na área, o sentimento de inaptidão faz com que o analfabeto se sinta culpado. “O analfabeto acha que a culpa é dele, que ele é responsável por ser analfabeto. Ele não tem consciência crítica para saber que na verdade ele foi uma vítima, e não um responsável por essa situação.
Infelizmente, ainda hoje, por causa das políticas públicas, parece que é um direito só das crianças”, afirmou Jany, em entrevista ao G1. Demanda e oferta – Um levantamento inédito feito pelo G1 com base em dados da Fundação Seade e da Prefeitura de São Paulo, e compilados pela ONG Ação Educativa, mostra a incompatibilidade entre o número de salas do Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos (Mova) mantidas pelo governo municipal. O cruzamento de dados foi feito entre as taxas de analfabetismo em cada um dos 96 distritos da Capital e entre a listagem de turmas do Mova que a Secretaria Municipal de Educação (SME) divulga em seu site oficial.
A taxa de analfabetismo da cidade de São Paulo era dois terços menor que a média nacional em 2010, mas o cruzamento mostra que, considerando as diferenças distritais, a oferta de salas de aula para a alfabetização de jovens e adultos não condiz com a realidade das demandas regionais. Dos dez distritos com as maiores taxas de analfabetismo, dois não têm sequer uma sala de alfabetização, só cinco também estão na lista de dez distritos com o maior número de salas de alfabetização. Em entrevista ao G1, Lívia Maria Antongiovanni, diretora da Divisão de Orientação Técnica da Educação de Jovens e Adultos da SME, afirmou que, em agosto deste ano, a Prefeitura tinha 12.031 alunos matriculados em 490 salas do Mova, número que tem aumentado desde 2014, e que mantém parceria com 96 instituições para a realização de cursos anuais de alfabetização.
Com índice de população analfabeta de 8,8%, Marsilac, distrito que fica no extremo Sul da cidade, é o que mais concentra pessoas que não sabem ler ou escrever, mas há cinco anos não há salas mantidas pela Prefeitura no local. A taxa de analfabetismo na Capital Paulista era de 4,3% em 2010, mas Marsilac, que tem o maior índice dos distritos paulistanos, tinha números mais próximos que a média brasileira, de 9,6%, segundo dados do Censo Demográfico do IBGE. A Acoema, associação de moradores de Engenheiro Marsilac, manteve turmas de alfabetização entre 2003 e 2010, e chegou a ter dez salas. Da verba recebida pelas aulas, 12% cobria materal pedagógico e limpeza, e 88% do valor ia para a remuneração de professores e gastos de aluguel das salas. Segundo Maria Lúcia Cirillo, ex-presidente da associação, o problema que levou ao fechamento das turmas é o fato de o bairro estar na zona rural, o que acaba levando a muitas faltas dos alunos. “Quando vem a visita da supervisão e não tem o número [mínimo] de alunos, a sala fica sem pagamento daquele mês, aí ia indo até que ia fechando a sala”, lembra ela. Depois de desenvolver problemas de saúde, Maria Lúcia acabou entregando as últimas turmas à Secretaria de Educação. Desde então, Marsilac não tem cursos de alfabetização em parceria com a Prefeitura.
Meta descumprida – Nesta terça-feira (8), a Unesco celebra o Dia Mundial da Alfabetização, a poucos meses do fim do prazo das seis metas mundiais para a educação definidas para o período entre 2000 e 2015. Alcançar uma redução de 50% nos níveis de analfabetismo de adultos até este ano é a meta 4 e, em abril deste ano, só 25% dos países cumpriram o combinado. O Brasil não foi um deles, segundo a Unesco. Na época, o governo federal afirmou que o Brasil avançou no combate ao analfabetismo, principalmente entre os jovens, mas disse que, entre as pessoas com mais de 60 anos, a redução da taxa foi mais discreta. Segundo o Censo Demográfico, nessa faixa etária, a taxa era de 14,1% em 2010.
Aprender antes de morrer – Um exemplo que fugiu a essa tendência é o de Therezinha Brandolim de Souza. Esse é o comprido nome da artista de 84 anos conhecida como Tetê. Antes de 2013, quando foi alfabetizada, ela tinha outros predicados. Era a filha mais velha de uma família de imigrantes que cresceu entre um embate da escola com a enxada vencido pela segunda. Tetê casou, perdeu o marido e criou os cinco filhos trabalhando como doméstica em Ribeirão Preto (SP). Mas sempre dizia que queria aprender a ler e escrever antes de morrer. “Eu trabalhava de noite, então tinha que vir para casa e não sabia ler o nome das ruas. Então eu chorava, chorava, e pedia para Deus me guiar”, lembra ela. Ela conseguiu, aos 82 anos, depois de inúmeras tentativas, graças a aulas particulares recebidas de Jany, que então trabalhava no Instituto Paulo Freire, ONG que é referência na área de alfabetização. No ano seguinte, depois de escrever um cartão de Páscoa aos netos, e decorá-lo com tecidos coloridos, ela decidiu montar uma colagem com o que sobrou do tecido. Ali nascia a artista que, no fim de agosto, recebeu um prêmio na 40ª Semana de Cândido Portinari em Brodowski, pequeno município em que nasceu o pintor brasileiro. Onde ex-professores diagnosticaram um “bloqueio” no aprendizado, Jany percebeu que havia apenas um problema de contextualização. Quando recebeu um pedido para dar aulas à idosa, ela descobriu que Tetê já tinha uma base avançada para a alfabetização, faltava que o conteúdo fosse menos infantilizado, e mais próximo do seu cotidiano. “Pedi para ela escrever a receita do pão que ela faz, e que muita gente adora”, lembra Jany. Em dois meses, segundo a professora, a idosa já era capaz de ler.
Formação de professores – Para a especialista, que coordenou 20 turmas da ONG Alfabetização Solidária (Alfasol) em São Paulo e na Bahia, alguns dos problemas que podem levar a casos de ineficácia dos curso envolvem a formação de alfabetizadores. “São professores leigos, não são nem formados como professores, são pessoas que atuam voluntariamente, que querem ajudar. quando são professores, são professores de crianças. Se você olhar o currículo das universidades, tem uma grande parte voltada para a educação infantil e fundamental, mas não tem muita coisa pra EJA. Quando tem, é um semestre.” Lívia, da Secretaria Municipal da Educação, afirma que os alfabetizadores do Mova não precisam ser formados em educação, mas devem passar por um curso de formação inicial e recebem acompanhamento periódico das diretorias regionais de ensino. As diretorias também são responsáveis por supervisionar a veracidade dos dados oferecidos pelas entidades parceiras, em visitas semanais. “Eles supervisionam o funcionamento das salas dos Movas, se os alunos são regulares. O supervisor vê a frequência, como tá o projeto pedagógico da sala de aula, e orienta também os formadores”, explicou ela. Entre os outros problemas estão a necessidade de haver pelo menos 12 alunos por sala e a burocracia para evitar fraudes, como listas de alunos fantasmas e professores que são pagos sem oferecer as aulas.
Parcerias com a sociedade civil – O Mova foi criado pelo educador Paulo Freire no fim da década de 1980, quando ele foi secretário municipal de Educação em São Paulo. O programa tem como objetivo formar parcerias com organizações não-governamentais, igrejas e associações comunitárias e de moradores. As entidades se responsabilizam por encontrar um professor, uma sala e um número mínimo de alunos, e a Prefeitura de São Paulo responde pela supervisão pedagógica dos instrutores e financia a manutenção do curso. Pela lei, cada classe, que deve ter no mínimo 20 alunos matriculados e frequência diária de pelo menos 12 alunos, recebe R$ 600 por mês. A metodologia do curso estima que o processo da alfabetização dure em torno de oito meses. Ao final do processo, porém, as dificuldades valem a pena, segundo Jany. “Quando conhecíamos os analfabetos, inicialmente eram pessoas que andavam de cabeça baixa, não tinham coragem de conversar. Depois elas saíam outras pessoas.” Antes de ser alfabetizada, Dona Tetê já desenhava. “Quando eu ficava sozinha na casa da minha filha, eu pegava papel, riscava, riscava, e aí escondia dela. Debaixo do sofá, em qualquer lugar eu enfiava”, lembra ela. “Eu achava que não sabia fazer nada.”
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