Por que o Brasil tem um povo feliz apesar do enorme fosso social

O Brasil tem um dos piores índices de desenvolvimento humano da América Latina, mas ocupa uma posição de destaque entre as nações mais felizes no mundo. O que explica a contradição?
PARADOXO Mesmo com um Índice de Desenvolvimento Humano estagnado, brasileiros se dizem felizes em pesquisa da ONU.
Todos os dias, adolescentes do Complexo do Alemão, uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, se reúnem para jogar futebol em algum campo da comunidade. Em meio à pobreza escancarada, de pés no chão, eles se divertem durante a partida improvisada. Diariamente, mulheres acordam no interior do Nordeste, antes do dia clarear, para percorrer quilômetros e deixar seus filhos em creches ou escolas. Incansáveis, elas superam barreiras para garantir o acesso de suas crianças à educação. Quando o sol se põe na zona leste de São Paulo, trabalhadores das regiões mais afastadas encerram o expediente, encontram amigos em algum bar e falam sobre amenidades, para espantar as dificuldades do dia a dia.
Mesmo diante da falta de perspectiva, eles renovam a expectativa de uma vida melhor. Cenas como essas mostram que o sorriso no rosto se tornou uma espécie de marca registrada do brasileiro. A atmosfera otimista foi captada por um estudo mundial sobre a felicidade, divulgado pelas Nações Unidas na segunda-feira 20, que coloca o Brasil na 22ª posição em uma lista de 155 nações. Em contrapartida, um dia depois, outro relatório da ONU, que mede o índice de desenvolvimento humano, nos colocou no 79º lugar entre 188 países e apontou que, desde 2010, é a primeira vez que o indicador estagnou.
DESEMPREGO Nos últimos anos, milhares de brasileiros perderam o emprego com a crise, o que aprofunda a disparidade na renda per capita
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Para algumas nações, tais indicadores mostram coerência. No índice realizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Noruega, Suíça, Dinamarca e Austrália aparecem entre os dez países com melhor IDH do globo. Não é à toa, portanto, que são também as regiões que abrigam os cidadãos mais felizes. No caso do Brasil, os números revelam resultados aparentemente contraditórios. Um dos motivos que ajudam a explicar a conjuntura é a diferença na realização dos estudos. Para medir o IDH são utilizadas informações sobre renda, saúde, educação e expectativa de vida. “O conceito está relacionado às condições básicas para que a pessoa tenha possibilidades e consiga aproveitar oportunidades”, afirma à ISTOÉ Andréa Bolzon, coordenadora do estudo do Pnud. Já a pesquisa sobre a felicidade capta aspectos subjetivos dessas populações. “Questiona-se a autopercepção e como as pessoas se sentem diante da realidade em que vivem”, diz Saulo Rodrigues Filho, professor e especialista em índices do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília. Por isso, o Brasil alcança uma colocação melhor nesse ranking. “Apesar de todas as dificuldades do presente, há uma esperança em um futuro melhor e uma ideia de felicidade mesmo em condições precárias, o que pode ser visto também como resignação.”
 MISÉRIA Moradores de rua na praça João Mendes, no centro de São Paulo: aumenta a população em situação de vulnerabilidade social
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Muitos intelectuais brasileiros explicam do ponto de vista sociológico a ideia da felicidade presente mesmo em um contexto de miséria e subdesenvolvimento. A metáfora do homem cordial, criada por Sérgio Buarque de Holanda, trata do ser humano passional, não pacífico. A intolerância é uma marca recorrente na história do País. A passionalidade, confundida com cordialidade e bondade, é usada para o bem e para o mal. “Isso pode ser uma chave para entender como nos percebemos felizes mesmo com uma visão alienada, confusa e irracional sobre nossa condição de vida”, afirma Paulo Silvino Ribeiro, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). “Há uma falta de percepção política sobre a nossa realidade.” Na canção de Chico Buarque, “Dura na Queda”, a letra traduz os sentimentos de uma mulher que enfrenta dificuldades no dia a dia, mas que resiste e se diz feliz. “Perdeu a saia, perdeu o emprego, desfila natural.” Ao mesmo tempo em que ressalta “a dor não presta, felicidade, sim.” Dessa forma é possível entender que tanto no período da escravidão, quanto na crise econômica, a felicidade é vista como um tipo de escape social.
No relatório da ONU, um dos fatores responsáveis pela estagnação do IDH é a queda na renda do brasileiro. “Esse movimento se reflete no PIB e significa menos dinheiro para manter um padrão de vida digno”, afirma Andréa. Quando o índice de desenvolvimento para ou cai, é preciso prestar atenção, uma vez que ele mede as condições mínimas para uma vida com qualidade. Segundo o documento, somos o 10º país mais desigual do mundo. A disparidade faz com que tenhamos cidades como São Caetano do Sul, em São Paulo, com a maior renda per capita do País, de R$2.043,74, e municípios como Marajá do Sena, no Maranhão, com R$ 96,25. “Retomar o crescimento econômico não basta, os benefícios do desenvolvimento têm que chegar a todas as classes”, diz a coordenadora. Nesse sentido, o relatório mostra que a exclusão de mulheres, negros e indígenas é um entrave ao avanço da economia. No Brasil, a desigualdade de gênero é um dos problemas mais sérios. Apesar de o nível educacional das mulheres ser mais alto, os homens ainda têm uma renda 66,2% superior.
FELICIDADE Brasileiros assistem aos jogos da Copa em 2014: idéia de felicidade está relacionada à esperança de um futuro mais próspero
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Além disso, outros aspectos ainda rebaixam o Brasil diante de outros países. A elevada taxa de desemprego gera o aumento da pobreza e da informalidade. “Quando a economia estagna, diminuem os chamados low skill jobs (empregos de baixa habilidade) e quem depende deles fica sem nenhuma renda”, afirma Andréa. Embora a expectativa de vida tenha melhorado, o aumento da criminalidade ainda é responsável por inúmeras mortes em todas as regiões do País. O Brasil registra 60 mil homicídios por ano. O acesso à educação também apresentou melhoras do ponto de vista quantitativo, mas elas ainda são insuficientes. Para avançar no ranking e sermos um País de fato feliz é preciso investir em políticas de inclusão social e financeira, de ação afirmativa e no desenvolvimento humano sustentável, para que, em épocas de recessão, pessoas com menor poder aquisitivo não voltem à situação de pobreza. “Devemos fazer uma autocrítica e encarar a nossa infelicidade”, diz Ribeiro, da Fespsp. “Historicamente, tivemos um sistema que se moldou de forma a não dar condições para o nosso bem estar, direitos e nossa cidadania.” E são esses os valores que precisamos alcançar.
Os indicadores brasileiros

79ª é a posição do Brasil no ranking do índice de IDH da ONU entre 188 países
O país ocupa o 10º lugar entre as nações mais desiguais do mundo
O Brasil caiu 19 posições no que se refere à desigualdade de renda
Em contrapartida, o País ocupa a 22ª posição entre as nações mais felizes do planeta em um ranking de 155
O mais alegre é a Noruega, E o mais infeliz, a República Centro Africana

 

Da Redação: (esplanadagora@gmail.com)
Foto: Divulgação
Fonte: Isto É