Oficinas tipográficas resistem na Bahia

Eis o artista. Ele surge no topo de uma escada em forma de espiral. Tem 70 anos, barriga saliente, óculos pretos, bota de caubói, camisão de seda. Chama-se Arlindo e deseja nos informar: “Sou o rei deste lugar”. O lugar é apinhado, pobre, decorado com calendários de anos passados, com papéis amassados e com milhares de pequenos cubos de chumbo marcados com acentos, números, letras. Eis a gramática. “Minhas mãos sempre estiveram prontas”, diz o artista, massageando seu tesouro metálico. “Minhas mãos, até então desperdiçadas, sempre estiveram prontas para isso”.

Estamos no bairro do Comércio, na Coutinho & Coutinho, a gráfica mais antiga de Salvador ainda em atividade. Suas paredes, desbotando um azul profundo, remetem a uma Atlântida que resistiu ao mar. As máquinas são as mesmas que imprimiram panfletos e cartazes para a campanha presidencial de Juscelino Kubitschek e para o anúncio da nova capital Brasília. Quando o velho dono morreu, há 15 anos, a dívida trabalhista era grande, os herdeiros desistiram do negócio, os cinco funcionários assumiram o comando da gráfica e fizeram a outrora lustrosa Coutinho & Coutinho chegar ao século 21 como uma tenda mambembe feita de ferro e chumbo.

Quando se diz rei, Arlindo diz a sua função. Ao contrário dos demais funcionários, que agora trabalham em cargos administrativos, ele se manteve tipógrafo, o homem que ordena os pequenos cubos metálicos e os lança numa máquina Heidelberg, ano 1932, para dela saírem textos impressos. Não sem antes sujar as mãos com camadas de óleo e graxa e pôr no ar um barulho industrial que sobrepõe os ambulantes apregoando martelos, bananas e tabocas na rua ao lado.

Com a barriga despejada na função, Arlindo é projeção de homens e povos. De chineses que criaram a impressão por meio de letras e símbolos em relevo esculpidos em terracota a coreanos que tomaram a dianteira do processo e lançaram os caracteres móveis metálicos; de Johannes Gutenberg (1400-1468), o alemão que desenvolveu as letras de chumbo, utilizadas sem prazo de validade, a Manoel Antonio Silva Serva (1760-1819), o português que, em Salvador, fundou a primeira tipografia de propriedade particular da Colônia, editou o primeiro jornal privado do país, Idade d’Ouro do Brazil (1811), e a primeira revista, As variedades ou ensaios de literatura (1812).

Arlindo Sousa é um artista que assumiu sua vocação já tarde. Foi garçom e vendedor de cigarros antes de, aos 30 anos, ser tipógrafo. Se, como ele diz, as máquinas alteram a personalidade de quem as maneja, podendo degradar, partir ou domesticar o operador, temos, então, um exemplar das três fases. Arlindo se diz um jovem antes nocauteado pelas maravilhas da impressão moderna e, agora, um senhor de batida ágil, frenética e telegráfica, como são as engrenagens que o encaram diariamente.

MOVIMENTO

As gráficas que ainda mantêm a tipografia manual na Bahia o fazem ora pela necessidade econômica (esse é um sistema barato), ora pelos clientes que chegam atrás de certa impolidez e rudeza na impressão, ora pelos tipógrafos apegados às suas histórias e ao ritual. Não há levantamento que ateste a quantidade de gráficas assim no estado. Sabe-se que são poucas e que elas minguam; que quase todas já introduziram um ou outro computador para serviços rápidos e que, embora trabalhem quase sempre produzindo talões de nota fiscal, calendários e panfletos, preferem mesmo quando alguém chega pedindo a retomada da arte.

Assim é na São Fidelista, empreendimento dos irmãos Raimundo e Antônio Silva, em São Félix, no Recôncavo baiano. Na entrada há balcões de madeira e três computadores que passam por uma gráfica deste tempo. No fundo, num espaço dez vezes maior, opera uma fábrica ruidosa, de homens sujos e apressados. São seis funcionários, incluindo os donos irmãos. Embora todos trabalhem orquestrados, a simbiose de destaque é destes dois homens de mesmo sangue, tipógrafos.

A habilidade de Raimundo, 69, em manipular os tipos de chumbo forma um par com a de Antônio, 64, diante da máquina Tip-Top, marca Bautzen, de origem alemã, adequada para a impressão de convites, boletins e diplomas. Em alguns momentos, a engrenagem da máquina, subitamente cortada pelos gestos dos homens, deixa um rastro de movimento e atrito que se confunde com o do automóvel avançando na pista, com a força do motor.

A São Fidelista, que funciona há 50 anos e já foi responsável pela impressão do jornal Correio de São Félix, hoje tem como principal cliente a fábrica de charutos Dannemann, interessada em cartões e embalagens que remetam à sociedade de homens de terno e fumo em punho, algo que, atesta Antônio, só letras carimbadas em papel podem fazer.

Esta é uma visão encantada que ele carrega desde os 10 anos, quando foi mandado pelos pais para aprender a profissão. “O mais difícil foi ‘pegar’ o ABC”, diz, mostrando uma imensa gaveta, dividida por quadrados onde ficam os tipos de chumbo. Uma espécie de teclado primordial, onde o tipógrafo deve afundar a mão, escolher letras acentuadas ou não, de caixa alta ou não, e montar uma matriz (rama) do texto. “Depois de aprender, nunca mais errei”, completa, ajeitando a biografia.

Não é raro que a rotina desta gráfica em São Félix seja interrompida por interessados em comprar seu maquinário, os tipos e os clichês (placas feitas de zinco, usadas para imprimir imagens e pequenos textos) que ainda brilham como novos. São colecionadores e entusiastas das artes gráficas, temerosos de que tudo seja descartado ou fundido, destino de tantos equipamentos das gráficas já deletadas do mapa. Raimundo e Antônio ponderam, dificilmente vendem, mas, “você sabe, não adianta ter seis máquinas se só há serviço para duas”, resvala o irmão mais novo Antônio.

Centenas de tipos e clichês da São Fidelista repousam na casa de Evandro Sybine, professor do curso de belas artes da Ufba. Num impulso que é um misto de colecionismo e ciência, Sybine pretende levar os equipamentos à universidade e inaugurar uma linha de pesquisa sobre tipografia na Bahia. “Nos últimos cinco anos, o mundo mudou mais do que em um século”, ele diz. “Não podemos perder o fio da nossa evolução”.

HOMEM-MÁQUINA

A invenção das prensas tipográficas é considerada, por aqueles que estudam a comunicação, uma virada não apenas na linha evolutiva do design, mas do pensamento humano. A tipografia criou um ordenamento sequencial e repetível de informações. Levou as pessoas rumo ao pensamento linear e à lógica. Se hoje falamos do homem digital, pode-se dizer que, por séculos, fomos todos homens tipográficos.

Mesmo com versões compactas das máquinas de escrever, a equação manteve-se. Nietzsche mudou de estilo quando começou a datilografar – dizem que ficou mais ligeiro e conciso. “Nossas ferramentas de escrita participam da formação dos nossos pensamentos”, ele próprio afirmou, respondendo à carta de um aluno e elucidando a ligação homem-máquina que hoje também atesta o artista Arlindo.

No ofício da tipografia, entretanto, a mecânica é só uma base. No fundo, como dizia João Pereira, homem que formou gerações de tipógrafos baianos, este ofício assemelha-se ao de um esteticista. “Um esteticista não faz você ficar mais bonito? Fazemos um pouco a mesma coisa – fazemos um texto parecer mais bonito”.

Durante 60 anos, Pereira foi um ícone de olho veloz em medir formas e espaços, dando desenho ao que lhe pedissem para imprimir. Fundou sua gráfica, a Pereira & Companhia, em Nazaré, em 1956. Chegou a ter 15 funcionários, que passaram a cinco, até ser apenas ele, senhor de ombros miúdos, a conduzir sua fabriqueta de impressões. “Posso até vender tudo, desde que eu consiga, pelo menos, rever as máquinas e os tipos uma vez por semana”, disse, seis dias antes de morrer, no final de junho, aos 89 anos.

No ponto comercial onde decantam o maquinário majestoso da Pereira & Companhia, etiquetas colocadas pelos herdeiros fazem a correção monetária. As três prensas tipográficas, modelo Minerva, saem por R$ 300 e todas as fontes de uma mesma família, por R$ 100. Aline, filha de Pereira, garante que pode até vender mais barato, pois o que quer mesmo é o ponto vazio para abrir um salão de beleza.

ARMA

Permanecer tipógrafo, num mundo avesso ao envelhecimento, requer certa dose de renúncia. Foi essa ciência que fez o proprietário da gráfica Nova Direção, no Mercado de Santa Bárbara, Raimundo Moraes, 69, desmontar sua prensa e, no lugar, dispor uma lan house para o filho tocar. A prensa, então, rumou para um quartinho em sua casa, no Cabula, onde a clientela modesta é atendida.

Moraes é um homem de energia inesgotável para contar histórias. No seu valioso refúgio, onde guarda a vida como tipógrafo, lembrou que aprender o ofício foi uma forma de sanar seu desvio precoce de escolaridade. Desinteressado pelos textos da escola, alfabetizou-se com letras metálicas. O primeiro nome que imprimiu foi o próprio. Mas a primeira lição na profissão foi ele quem deu. “O meu professor, querendo colocar medo, disse: ‘A máquina pode arrancar a sua mão’. Eu respondi: ‘Só arranca se eu deixar'”.

Numa dessas cavidades da vida, ele achou que não havia mais nada a acrescentar à tipografia, que tudo já estava feito. Tornou-se, por 12 anos, membro do Batalhão de Polícia de Choque. Sem tato para o porrete e o gás lacrimogêneo, largou a lida – até hoje responde a um processo por deserção. Em sua escondida oficina, este tipógrafo vê a redenção da profissão. O alfabeto de chumbo que hoje Raimundo Moraes utiliza foi resgatado de uma antiga escola em Salvador: iria ser doado para o Exército, fundido e transformado em munição.